"Como começar um discurso póstumo sobre o cara da sua vida?"
Não sei, nunca achei que precisasse escrever a respeito, não havia pensado no "nunca mais da gente" por que sempre teve volta, sempre recomeçamos e eramos felizes por um tempo.
Ele era legal, gentil - até a página 2 - era bom de cama, era bom de dormir agarrado - acho que isso é o que mais vai me fazer falta, ele do meu lado com seus olhos verdes fechados.
Uma coisa é certa ele fará falta. Com sua alma livre - mesmo sem saber como usa-lá - era um músico sensacional, um poeta e um palhaço. Acho que ele gostaria de ser lembrando como tal, o menino da guitarra de uma banda foda. No entanto, o vento o levou antes da fama e infelizmente será lembrado por um ciclo bem pequeno de pessoais também especias para ele. Acho que sou uma delas e talvez uma das que mais lembrará dele.
Lembrarei do menino idiota que tocava violão e que participava da péssima rádio do colégio e quão odioso era nessa época. Lembrarei da estação de trem de Ricardo, ele nunca ficou sabendo, mas aquele lugar me faz um bem danado. Lembrarei das praias de ES e das noites não dormidas porque ele tava de serviço e queria minha companhia a noite toda e mesmo com muito sono, ficava ali com ele, porque era muito mais legal que dormir.
Lembrarei da passarela do shopping e da minha eterna vontade de fazer xixi nas horas mais improprias e da sua maldita mania de me fazer rir e piorar toda a situação. O shopping de Guadalupe nunca mais foi o mesmo depois daquele cinema, qual era o filme mesmo? Acho que ele morreu sem saber o nome.
Sempre que chover na saída do meu trabalho, lembrarei do guarda chuva quebrado dele. O 399 é o ônibus mais legal do mundo.
O Magrelo era o Ser mais confuso de todos e eu quis ajudar, na verdade eu só queria ajuda-lo a se achar de verdade, não queria que precisasse de mim mas que me quisesse por perto nas horas mais difíceis (e facies também) e consegui.
O grande problema da sua morte é que parte de mim morreu junto. Morre a sensação da volta, morre minha imagem refletida dos olhos dele, morre o Bem de mim. Mas sabe o que fica? A lembrança do Magrelo sendo ele, ou melhor, tentando ser ele. Fica o 'eterno' e o 'infinito' daqueles momentos breves, fica o gosto do nosso beijo e da nossa pele, fica a sensação de 'para sempre' em uma história pela metade, somos uma frese sem ponto ou vírgula, somos infelizmente, sem conclusão e isso de alguma forma faz ser válido tudo que sinto e o que senti por ele.
Magrelo de olhos verdes que me arrancava altas gargalhas em publico e grandes gemidos entre quatro paredes.
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