Nasci e cresci no
morro do Cantagalo e de lá nunca sai e provavelmente não sairei. Minha vista é
muito mais bonita do que de gente que mora no asfalto, pois é do alto e isso
justifica minha estada lá até hoje.
Moro perto da
praia mais bonita do Rio de Janeiro, Ipanema, e não pago o preço de morar na
zona sul.
Desço o morro todo
dia de manhã, vou para o trabalho a beira mar, gosto de viver do sol e para o
sol, vejo gente bonita, sim, todos se tornem belos a luz dourada do sol do
Arpoador. Vendo minhas águas de cocô, meus sanduíches naturais, alugo
cadeiras e chapéus, no fim do dia caio no mar como se fosse a primeira vez e
todo o meu cansaço vai embora, lavo o corpo e a limpeza reflete na minha
alma.
A noite cai, mas o
movimento não, a praia de noite é uma grande festa. Um grupo coloca música,
canta e dança, riem e conversam muito, fumam o cigarro proibido e bebem como se
não houvesse um amanhã de ressaca, simplesmente se divertem.
Quando o meu turno
acaba, meus óculos já no topo da cabeça. Volto andando para casa, meu pequeno
casebre, em alguma viela do meu tão amado Cantagalo. Tomo meu banho, coloco
minha bermuda e vou para laje. O céu azul anil com pontinhos brilhantes
denominados estrelas, uma grande lua com um branco esplendoroso que chega arder
os olhos ao ser encarada de frente.
Ligo a luz,
sento-me na cadeira de praia, leio meu livro, escuto minhas músicas e tiro cochilos,
logo percebo que tenho que dormir.
Às 5 horas já
estou de pé novamente, desço meu morro com o dia ainda escuro, a lua ainda está
presa ao céu, anunciando que é noite ainda. Conhecidos passam por mim, trocando
as pernas ao voltar para casa, afinal é sábado de manhã, o que se espera de uma
sexta a noite, a não ser voltar para casa na manhã seguinte?!
O fato é, estou
descendo a ladeira para ser o transparente mais visível do Rio de Janeiro, eu
vivo ali servindo as pessoas, mas sou só mais um a servi-las, mas gosto de ser
invisível, gosto de me camuflar por trás dos meus óculos e ser mais um em meio
a multidão que tem o prazer de aplaudir, todos os dias, a cada pôr do sol e
sabe o mais legal de tudo? Minhas palmas fazem o mesmo barulho que de qualquer
pessoa "visível" das pedras do Arpoador.
Conto: Kássia Hellen
Photo: Michelle Werlich
=*

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