Outro dia me
peguei admirando e fotografando uma bandeira
nacional, estranhamente em frente a uma favela do Rio. Não acho estranha
a favela, mas sim minha admiração. Eu sei que o Rio é cercado de comunidades,
que todos os bairros têm pelo menos uma favela para contar história, mas ao ver
aquela bandeira ali, um choque realidade me abateu.
Eu nasci e cresci
em uma comunidade na Zona Norte, na minha infância, ver gente armada
na rua e usuários de drogas na minha porta, era normal. Hoje, já não moro mais
lá, moro no mesmo bairro, mas em outra região e percebo o quão diferente pode
ser dois mundos.
Olhando de longe,
vendo aquelas casinhas todas amontoadas em planta mais alta, com suas caixas
d'água e suas paredes de tijolos, me pergunto então, se aquele povo tem um
rosto, tem uma voz, por que, quando eu era pequena e via as pessoas na minha
rua saindo para trabalhar de manhã e não eram os melhores empregos do mundo.
A luz faltava com
frequência e as vezes demorava 24 horas para voltar, não importava o quanto a
gente ligasse para light, nunca era o suficiente, então, descobriram o "gato" uma forma legal de ser
ilegal, depois do gato, nunca mais faltou luz. Entrega de moves e
eletrodoméstico, dificilmente entrava lá, por puro medo e eu não morava no
morro não, era só mais uma comunidade da Zona Norte.
Hoje, olhando para
o alto do morro, me pego pensando como será morar lá em cima. A melhor vista do
mundo sob que preço?
Enquanto as
pessoas correm de um lado para outro no asfalto, um sem olhar na cara do outro,
sem perceber o outro, pois o tempo não os permite esse tipo de preocupação, na
comunidade um conhece o outro pelo nome, um ajuda o outro, acontece um tipo de
cumplicidade sem igual. Quando um "favelado" vem para o asfalto,
geralmente como um trabalhador, também passa despercebido, é só mais um
tentando vencer na vida entre os leões, rezando para voltar para casa onde tudo
é mais comum, onde o Bom Dia é
dado sem dor.
E o perigo? Por
ter morando em uma comunidade, sei bem como é. Bandido de dentro não rouba
morador, e se acontece qualquer coisa com qualquer pessoa daquele lugar é questão
de honra a "vingança". Não sei como funciona nas grandes favelas, mas
pelo menos aqui era assim. É muito mais perigoso ir para o asfalto, ser
assaltado por qualquer pivete (eu
nunca fui assaltada, mas sei do que estou falando).
Eu sou extremante patriota, adoro o meu país e
especialmente amo ser carioca, amo
ser cercada de favelas e praias paradisíacas, amo nosso sotaque (o carioquex, é o melhor do mundo),
amo a nossa hospitalidade. Eu sei que o Rio é o lugar mais caro de se viver,
sei que o perigo aqui é eminente, que o transito é um horror e que tem um
pivete para cada habitante nessa cidade. Porém, não largo o meu Rio por nada
nesse mundo. “Ser feliz em Ipanema e encher a cara no
Leblon” é o meu sonho de vida!
=*
Adorei o texto' são questões que sempre pensamos. Ka, a foto é sua?? Maravilhosa!!
ResponderExcluirÉ sim.. Obrigada, Nine! *-*
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