quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Cotidiano ;)

Outro dia me peguei admirando e fotografando uma bandeira nacional, estranhamente em frente a uma favela do Rio. Não acho estranha a favela, mas sim minha admiração. Eu sei que o Rio é cercado de comunidades, que todos os bairros têm pelo menos uma favela para contar história, mas ao ver aquela bandeira ali, um choque realidade me abateu. 
Eu nasci e cresci em uma comunidade na Zona Norte, na minha infância, ver gente armada na rua e usuários de drogas na minha porta, era normal. Hoje, já não moro mais lá, moro no mesmo bairro, mas em outra região e percebo o quão diferente pode ser dois mundos. 
Olhando de longe, vendo aquelas casinhas todas amontoadas em planta mais alta, com suas caixas d'água e suas paredes de tijolos, me pergunto então, se aquele povo tem um rosto, tem uma voz, por que, quando eu era pequena e via as pessoas na minha rua saindo para trabalhar de manhã e não eram os melhores empregos do mundo.
A luz faltava com frequência e as vezes demorava 24 horas para voltar, não importava o quanto a gente ligasse para light, nunca era o suficiente, então, descobriram o "gato" uma forma legal de ser ilegal, depois do gato, nunca mais faltou luz. Entrega de moves e eletrodoméstico, dificilmente entrava lá, por puro medo e eu não morava no morro não, era só mais uma comunidade da Zona Norte.
Hoje, olhando para o alto do morro, me pego pensando como será morar lá em cima. A melhor vista do mundo sob que preço? 
Enquanto as pessoas correm de um lado para outro no asfalto, um sem olhar na cara do outro, sem perceber o outro, pois o tempo não os permite esse tipo de preocupação, na comunidade um conhece o outro pelo nome, um ajuda o outro, acontece um tipo de cumplicidade sem igual. Quando um "favelado" vem para o asfalto, geralmente como um trabalhador, também passa despercebido, é só mais um tentando vencer na vida entre os leões, rezando para voltar para casa onde tudo é mais comum, onde o Bom Dia é dado sem dor. 
E o perigo? Por ter morando em uma comunidade, sei bem como é. Bandido de dentro não rouba morador, e se acontece qualquer coisa com qualquer pessoa daquele lugar é questão de honra a "vingança". Não sei como funciona nas grandes favelas, mas pelo menos aqui era assim. É muito mais perigoso ir para o asfalto, ser assaltado por qualquer pivete (eu nunca fui assaltada, mas sei do que estou falando). 

Eu sou extremante patriota, adoro o meu país e especialmente amo ser carioca, amo ser cercada de favelas e praias paradisíacas, amo nosso sotaque (o carioquex, é o melhor do mundo), amo a nossa hospitalidade. Eu sei que o Rio é o lugar mais caro de se viver, sei que o perigo aqui é eminente, que o transito é um horror e que tem um pivete para cada habitante nessa cidade. Porém, não largo o meu Rio por nada nesse mundo. “Ser feliz em Ipanema e encher a cara no Leblon” é o meu sonho de vida!

=*

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